Promessa da base, o jovem Ary Rian Oliveira, de 14 anos, quase teve o sonho de ser goleiro do Flamengo interrompido depois de cortar a perna direita em uma tubulação de concreto de uma obra inacabada no Centro de Treinamento do clube, em Vargem Grande.
O acidente aconteceu na última sexta-feira, pela manhã. Rian deixava o campo 1 e deu um pique após o treinamento com o time infantil, quando escorregou na terra molhada atrás do gol e caiu numa vala.
Com suspeita de fratura exposta, o jogador foi levado às pressas para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra, onde levou 33 pontos, como mostra foto que ele postou na internet. Por sorte, não foi constatada lesão no músculo ou no tendão.
— Pensei que nunca mais ia jogar bola — contou Rian, que espera voltar a treinar em 20 dias no Ninho do Urubu.
Verdadeiro canteiro de obras, o CT representa um perigo por ter tantos pontos vulneráveis e ser habitado por inúmeras crianças. Um dos responsáveis pelas reformas, o funcionário Francisco Assis, conhecido como Juruna, admite que estava — e está — em andamento o fechamento da vala em que Rian se machucou.
— A estrada atrás do campo é muito acidentada, por isso estamos botando uma manilha e fechando. Só que o garoto veio correndo e caiu. Já está ficando pronta, estava em andamento. A manilha está ali há menos de duas semanas. Mas é um serviço demorado — afirmou, dando noção do perigo para crianças no espaço, em obras há mais de um ano.
— O CT está todo em obra, tem risco de acidente em qualquer lugar, ainda mais com criança correndo. Já pensamos em fechar aquilo para que o jogador não caia em dia chuvoso. Nesse tempo, deu azar do garoto cair
— completou.
O azar só não foi maior porque Rian tentou tirar a perna durante a queda. Ele já está tomando antiinflamatório e antibiótico, e consegue ir para a escola. No prontuário, o médico Sérgio consta como acompanhante. Procurado, negou-se a falar sobre a saúde do goleiro.
— Não posso dar informação sem falar com a diretoria — alegou Sérgio.
Embora o Centro de Treinamento esteja cercado por obras que parecem não ter fim, o gerente das categorias de base, Carlos Brasil, diz que o Flamengo não tem responsabilidade no acidente, mesmo acolhendo centenas de crianças no local.
— O menino entrou num lugar que não devia, bateu com a perna numa manilha, cortou, mas não foi nada grave. Foi correr por trás da árvore atrás do campo e caiu. Foi atendido e ficou tudo bem — minimizou o representante do clube.
Questionado se o Flamengo não deveria isolar o local, já que estava fazendo uma obra para evitar acidentes, Carlos Brasil afirma que a obra não oferece perigo.
— Ali, não tem perigo nenhum. Ele saiu correndo onde não era para sair, num lugar estreito. Tanto é que nunca aconteceu nada — afirma o gerente.
Com a missão de tocar as obras no CT, somando a função de gerente das categorias de base, Carlos Brasil está pessimista quanto à conclusão das obras.
— A primeira previsão era no meio do ano, agora já falam no final do ano. Eu não acredito. Vai ficar para o início do ano que vem. Querem começar a entregar o módulo do profissional até o fim do ano. A Patricia (Amorim) pediu para eu dar uma acumulada (cargos) com a obra — explicou.
Responsável pela obra no local do acidente, Francisco Assis afirma que o serviço deve ficar pronto ainda hoje. Mas não garantiu o fim do perigo.
— Quase todo o CT está em obra. Por mais que proteja as coisas, acaba acontecendo um acidente. Ainda mais com criança — disse.
Campanhas sem efeito, jeitinho e interdição
Adquirido pelo Flamengo em 1984 pelo então presidente George Helal, que dá nome ao CT, o apelidado Ninho do Urubu conviveu as últimas décadas com o descaso do clube, que buscou recursos através de campanhas junto ao torcedor sem o efeito desejado. Recentemente, na administração do técnico Vanderlei Luxemburgo, uma nova onda de profissionalismo motivou o Flamengo a acelerar obras para dar condições de treinamento para o time profissional.
Todas as categorias de base treinam nas instalações, que passam por obras intermináveis desde 2010. No começo de 2012 o CT chegou a ser interditado por falta de alvará. O clube resolveu a situação burocrática, mas o erguimento de estrutura ainda anda a passos lentos, forçando o improviso, com colocação de containers de forma provisória.
A campanha do tijolinho foi a última iniciativa da atual diretoria, para que os flamenguistas ajudassem a investir no CT. Outras ações no passado já tentaram buscar esse tipo de ajuda, como a campanha "Eu amo o Fla" e Camisa 12. Vários presidentes passaram pelo clube com promessa de projetos para o Ninho do Urubu. Até agora, as intenções ficaram no papel.
Fonte: Extra Globo
































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